Plástico comestível protege alimentos de bactérias

Kim Severson

Melhor deixar os tomateiros premiados aos agricultores orgânicos e o estudo da carne de porco aos chefes de cozinha. No departamento de Química da Universidade Rutgers e em outros laboratórios semelhantes, a ação verdadeira se desenrola com ingredientes menos populares, como o orégano, cascas de caranguejo e leite. Em um punhado de laboratórios científicos em partes diversas dos Estados Unidos, as pessoas que conversam sobre comida em termos de micróbios e polímeros vêm transformando os recursos naturais de combate a patógenos encontrados nos alimentos cotidianos em películas e pós comestíveis.

Caso seu trabalho obtenha sucesso, películas finas contendo um derivado do tomilho capaz de matar a bactéria E.colli podem servir como revestimento para embalagens de espinafre fresco. O mesmo material, em pó, poderia ser aspergido sobre embalagens de carne de frango para deter o salmonella. Os morangos poderiam ser mergulhados em uma sopa feita de proteínas de ovo e cascas de camarão. A película resultante – invisível, comestível e, idealmente, sem sabor – combateria o mofo, mataria patógenos e manteria as frutas maduras por mais tempo.

Para o consumidor médio, que ainda encontra dificuldades para compreender conceitos como o da gordura trans, comida revestida de películas invisíveis capazes de atrair microorganismos daninhos e eliminá-los talvez pareça tão complicada quanto a fusão nuclear. Mas os cientistas da alimentação acreditam que o potencial de uso desses ingredientes cotidianos para aumentar a segurança de nossas fontes de comida seja imenso.

“As películas naturais são assunto muito quente hoje em dia”, disse Michael Chikindas, cientista da alimentação que trabalha com a equipe da Rutgers. “A gama de aplicações é infinita, de comidas muito delicadas a rações de exército e missões espaciais”. No nível mais básico, as películas se assemelham a uma embalagem plástica feita de componentes comestíveis e solúveis em água. As películas podem ser impregnadas com moléculas de cravo, tomilho e outros ingredientes capazes de impedir o crescimento de bactérias daninhas. E, em um benefício culinário adicional, elas também podem servir como tempero.

É claro que aquilo que funciona no laboratório nem sempre se adapta bem a uma linha de produção. Até onde sabe a maioria dos cientistas, essas novas películas e pós comestíveis de combate a bactérias ainda não chegaram ao mercado. Mas o momento está próximo, dizem os pesquisadores. Há pedidos de patente em avaliação, e diversas grandes empresas, grupos de commodities e o governo federal investiram nessa linha de pesquisa.

Em qualquer inovação no processamento de alimentos, o momento precisa ser correto tanto para os consumidores quanto para os fabricantes, e talvez o momento seja este. Reportagens sobre surtos de doenças causados por alimentos se tornaram parte diária das notícias. Na semana passada, por exemplo, cenouras anãs infectadas com a bactéria shigella tiveram de ser recolhidas em 12 Estados americanos. Em julho, 96 marcas de molho de chili enlatado e outros derivados de carne tiveram de ser recolhidas, devido a um pânico quanto a botulismo. Em junho, os consumidores foram aconselhados a jogar fora o salgadinho conhecido como Veggie Booty, depois que a presença de salmonella em certos lotes do produto causou doenças a pessoas de 17 Estados.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Fonte: The New York Times


 
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